top of page

Existe diferença entre Autismo e Síndrome de Asperger?

De diagnósticos distintos a apresentações da mesma condição



Anteriormente, utilizava-se diferentes classificações para o transtorno do espectro do autismo sendo denominado como autismo infantil precoce, autismo infantil, autismo de Kanner, autismo de alto funcionamento, autismo atípico, transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação, transtorno desintegrativo da infância e transtorno de Asperger ou síndrome de Rett.


Contudo, existia tanta sobreposição entre as características desses transtornos que a distinção se tornava difícil e, muitas vezes, tornava por atrasar o diagnóstico. Essas terminologias foram, portanto, unificadas em transtorno do espectro do autismo (exceto a síndrome de Rett, que é causada por uma alteração genética específica e possui inclusive CID-11 próprio).


A origem dessa distinção entre autismo infantil e síndrome remete à história do entendimento do transtorno do espectro autista em si.


Em 1943, dois psiquiatras, Leo Kanner e Hans Asperger, trabalhando de forma independente, descreveram o TEA como uma condição distinta. Até então, o termo autismo havia sido empregado em 1911 pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler como um sintoma da esquizofrenia, que definiu como sendo uma "fuga da realidade".



Leo Kanner foi um psiquiatra austríaco que se radicou nos Estados Unidos, tendo se tornado professor de psiquiatria infantil do Johns Hopkins Hospital em Baltimore após a publicação "Autistic disturbances of affective contact" (Distúrbios autísticos do contato afetivo), na revista Nervous Children. Nele, descreveu os casos de onze crianças que tinham em comum "um isolamento extremo desde o início da vida e um desejo obsessivo pela preservação da mesmice", denominando-as de "autistas".


Em 1949, Kanner cunhou o termo mãe-geladeira, que dava a entender que a causa da alteração comportamental das crianças tinha relação com uma falta de afeto e indiferença materna. Mais tarde, ele afirmou ter sido mal interpretado e tentou se retratar apoiando o trabalho de pesquisadores que rejeitavam esse termo.





Na mesma época, na Universidade de Viena, o pediatra austríaco Hans Asperger publicou o artigo “Die 'Autistischen Psychopathen' im Kindesalter” (A ‘Psicopatia Autista’ na infância) na revista científica Archiv für Psychiatrie und Nervenkrankheiten, um trabalho baseado no estudo de mais de 400 crianças. Asperger descreveu que o padrão de comportamento observado ocorria preferencialmente em meninos e denominou-o de “psicopatia autista”, um transtorno de personalidade que incluía: falta de empatia, baixa capacidade de formar amizades, conversação unilateral, intenso foco em um assunto de interesse especial e movimentos descoordenados.

Asperger chamava seus pacientes de “pequenos professores”, pelos interesses restritos e nível de aprofundamento em um determinado assunto, além do discurso formal que apresentavam.


Apesar dessa aparente admiração por seus pacientes, descobriu-se que Hans Asperger classificava muitos de seus pacientes como "fisicamente anormais", considerando-as geneticamente inferiores.


O regime nazista, com o qual Hans Asperger cooperou, foi responsável pela morte dessas crianças através de injeção letal, fome e outros fatores como pneumonia.





Por muito tempo, os pacientes com síndrome de Asperger foram classificados de forma distinta dos demais indivíduos com transtorno do espectro autista. Muitos pais, como forma de proteção, queriam distanciar seus filhos dos quadros estereotipados de TEA, com crianças agressivas, agitadas, com comportamento socialmente não aceitos e dificuldade para falar. Isso, associado à divulgação pela mídia de pessoas com síndrome de Asperger com inteligência acima da média, levou a população à falsa crença de que pessoas com Asperger são necessariamente superdotadas e seriam “gênios incompreendidos”, diminuindo os desafios encontrados por indivíduos com Asperger na comunicação e interação social por exemplo.


Como não apresentam deficiência intelectual, as pessoas com autismo nível 1 (ou leve), frequentam escolas normais, trabalham e mantêm a maior parte do relacionamento com pessoas sem a condição, o que costuma levar a quadros de ansiedade, depressão e dificuldade de aceitação por seus grupos. É muito comum, inclusive, que não tenham um diagnóstico até que um aumento nas demandas sociais (exemplo, início de uma faculdade, entrada no mercado de trabalho, casamento e filhos) leve a uma acentuação das seus desafios psicológicos.


Atualmente, a síndrome de Asperger está compreendida no transtorno do espectro autista, sendo classificada pelo DSM-V como TEA nível 1 sem comprometimento da linguagem e sem comprometimento da inteligência. A própria Classificação Internacional das Doenças (CID) aboliu a divisão, unificando as duas condições. Portanto, do ponto vista médico, não os consideramos mais em diagnósticos distintos.


10 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page